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Não seja bundão, fale com sua ex

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Nossas relações passadas são responsáveis por boa parte daquilo que somos hoje. Aquilo que somos por inteiro devemos a partes, maiores ou menores, de outras pessoas que passaram por nossa vida. Gente que nos fodeu, no melhor e no pior sentido, que pagou a conta ou a dividiu, que somou forças pra subtrair solidão.

Enfim, somos o resultado de inúmeros encontros com inúmeras pessoas, desde aquelas que valem seu peso em algodão doce à outras que não valem uma pipoca molhada. Dizem por ai que ex bom é ex morto e isso pode até ser verdade em alguns casos (principalmente se o seu ex for alguém como eu, cheio das manias e paranoias), mas é bom lembrar que aquilo que dura o suficiente pra causar saudade, por si só já valeu a pena.

Foi pensando nisso que resolvi em uma noite dessas, quase que num surto psicótico, pegar o telefone e discar o número da minha ex. Não, eu não estava bêbado e também não havia planejado nada, só tinha no peito a sensação de que era o que eu precisava fazer.

Resolvi improvisar como fazem os jazzistas, só que tendo apenas a gratidão como instrumento, não um sax ou trompete. Assim que ela atendeu fui logo falando: “alô? Olha, não precisa falar nada, eu só preciso que me escute por um minuto ou dois e depois eu juro que sumo”.

Respiração profunda do outro lado, e antes que desse tempo dela se arrepender de ter atendido, enchi a boca e esvaziei o coração:

” – Sei que faz um tempo desde o último beijo de boa noite pouco antes do café da manhã, desde a última ligação ou mensagem de texto avisando que cheguei em casa bem, mas nada disso importa quando a saudade bate. E nem tô falando daquela saudade de casal, sabe? É uma bem maior, bem mais viva. Parece até um vinho que envelheceu e está pronto para ser servido. Se bem que, talvez seja um pouco saudade de casal também. Do cotidiano, das coisas pequenas do cotidiano. Não que eu não esteja bem agora ou que duvide que você também esteja, é só que talvez esse seja o momento certo pra dizer algumas coisas que por covardia ou comodismo eu ainda não havia dito”.

Ela esboça uma frase que não ouço até o fim, mas que começa com algo meio “mas o que deu em…”. Resolvo interromper. Sei que é falta de educação, mas porra, demorei tanto pra tomar coragem que não posso deixar passar, não posso me deixar intimidar temendo as consequências, é isso que penso com meus botões antes de continuar:

” – Sabe todas aquelas palavras duras, cheias de confiança e destemor que você dirigia à mim, mesmo depois de uma daquelas brigas mais fodidas? Então, eu só queria agradecer por cada letra contida em cada uma delas. Você não sabe o quanto elas foram importantes – talvez estejam lado a lado em importância com meus primeiros ensinamentos do beabá. Às vezes eu acho que a gente não tem noção da verdadeira significância que alguém tem em nossa vida até perdê-la para uma doença, um acidente ou um cara tatuado que acha que Stephen King é a nata da literatura. Não ria, você sabe muito bem que pra mim essas três coisas têm o mesmo peso.

Mesmo assim, eu continuo a te desejar a realização daquela felicidade que ensaiávamos juntos no dia a dia. Desejo que tenha alguém do seu lado pra te dar novos apelidos e, preste bastante atenção agora, eu desejo do fundo do coração que nunca sejam tão bons quanto aqueles que te dei.

No fim, tudo isso foi só pra dizer obrigado por ter entrado em minha vida e ter feito a diferença, obrigado por ser simplesmente você e não qualquer outra pessoa, obrigado por ter sido por um tempo minha vela e minha âncora, meu navio e meu avião; obrigado pelos planos de apartamento decorado e filhos catarrentinhos, me fazendo por vezes esquecer o meu pavor de ser pai.

Te desejo o melhor, mesmo quando estivermos chateados um com o outro por conta da lembrança de alguma mágoa ou cicatriz.

Ainda está ai? Agora sim, pode desligar”.

Ouço um soluçar. Não sei se é choro ou se é riso, se é deboche ou emoção. um silêncio comprido e finalmente ela desliga. Me sinto toneladas mais leve, é como se o mundo inteiro tivesse saído das minhas costas.

Minutos depois uma mensagem chega. É dela: “Obrigada por não ser bundão”.

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