Du Costa entrevista Renato Ratier, um ícone da e-music

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Essa semana tive o privilégio de entrevistar um ícone da cena eletrônica no Brasil e no mundo. Renato Ratier é nada mais, nada menos, que dono dos clubs D-edge e Warung, duas casas presentes no Brasil e de relevância internacional. Como empresário e DJ, ele é o pioneiro em um conceito único que virou referência para a cena underground no país. De forma aberta e sincera, ele nos concedeu uma entrevista exclusiva sobre temas jamais abordados antes, além de nos dar sua visão de futuro para a cena no Brasil. Um prato cheio para os amantes da e-music. Confiram!

Du Costa: Você está sempre envolvido em muitos projetos, algum novo pra esse ano além da expansão do D-edge como club?
Renato Ratier: A marca D-Edge hoje carrega o club, a gravadora, a DJ College (escola para Djs) e a D-Edge Agency. O D-Edge está prestes a abrir no Rio de Janeiro e tem o desafio de integrar várias artes. Além do club, haverá restaurante, estúdio, loja e livraria. É uma grande galeria interativa. Minha Idéia é fazer o público vivenciar a música e a noite como uma forma de expressão. Mesmo a dança e o comportamento das pessoas faz parte de algo maior e não simplesmente de uma “balada”, palavra que conota algo vazio e quem nem gosto de usar. Na minha visão, a noite não é simplesmente um momento pra sair e curtir, é uma oportunidade de expressar seu comportamento, interagir, conhecer pessoas novas, aprender a se relacionar e se educar para respeitar as diferenças convivendo de forma harmônica. O D-Edge tem essa característica de unir diferentes tribos convivendo respeitosamente em um mesmo ambiente e em torno de um interesse comum, que é a música. Esse é um tema que as pessoas deveriam colocar mais em pauta. Do contário fica tudo muito vazio e descartável. Esse projeto do Rio terá essa caracteristica muito forte. Abrirá durante o dia também. A data de inauguração está prevista pra Outubro desse ano.
O Bossa será um restaurante bar 24h focado em gastronomia, mas com estúdio integrado onde o ambiente atrairá artistas e o público em geral interagindo no mesmo local. Também está prestes a inaugurar nos próximos meses, só que em SP.
São todos projetos que tem seus desafios financeiros é claro, mas cujas motivações maiores tem a ver com a disseminação da arte. E nesse sentido eu sou um eterno sonhador.

Du Costa: O D-Edge completa 14 anos e é um dos raros cases de sucesso duradouros em um segmento difícil, que é o underground. Quais foram os outros fatores que vão além dos diferenciais explícitos como arquitetura, acústica e line-up?
Determinação foi o ponto chave, além da equipe e um bom clima no time. De fato todos os envolvidos amam, admiram e se envolvem profundamente com a marca D-Edge. Um pouco de visão e apostas no que daria certo no futuro, também ajudaram a consolidar o título de vanguardista.

10174842_652744718107429_7716805626991865260_nRatier e a equipe do D-Edge. Créditos: Arquivo pessoal.

Du Costa: Quais são os próximos desafios da marca D-edge?
O dia-a-dia da marca já pede cuidados especiais, com o selo, os festivais e o próprio club. Ainda temos que abrir o Bossa e o D-Edge no Rio. Também tenho participação em um novo projeto em Berlim em que sou fundador. É um projeto grande e completo com envolvimento do governo e também abrange a existência de um club, espaço para apresentação de orquestra, escola de música, restaurante, estúdio e tudo mais.

Resumindo já tem bastante coisa acontecendo e ainda estou voltando a trabalhar com moda, definindo a primeira coleção da minha própria marca chamada RATIER, voltada pra moda masculina e Home. Já tive loja multimarcas, mas o processo criativo é o que mais me cativa e esse é um bom momento pra voltar a trabalhar com moda. Além disso eu tento manter o equilíbrio de agenda com a vida pessoal, vendo minha família que fica em Campo Grande, o que é essencial pra manter minha visão fresca sobre o trabalho também. Ainda que eu tenha agenda cheia na Europa, priorizo voltar e estar com eles o máximo que posso, o que me revigora para as próximas jornadas.

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Du Costa: O que te motivou a entrar como sócio do Warung?
Eu já tocava frequentemente no Sul e procurava um local para inaugurar um projeto meu na região. O Warung passava por algumas incertezas, por conta das obras em um condomínio visinho, e convidei o Gustavo Conti pra ser sócio desse projeto. O convite se inverteu, onde o Conti garantiu a cotinuidade do club. Eu acreditei no projeto e sabia que o lugar era mágico. Minha entrada foi muito feliz porque me relaciono muito bem com meus sócios, especialmente com o Gustavo, que é um grande amigo e temos os mesmos ideais acima de qualquer coisa, o que vai além dos interesses empresariais. E essa sinergia entre D-Edge e Warung tem trazido uma soma muito positiva, como a criação dos festivais. Recentemente foram mais de 10 mil pessoas com o Festival do Warung em Curitiba, e teremos outro assinado pelo D-Edge em outubro. 

Du Costa: Você tem um trabalho forte na Europa, o que é raro para um brasileiro. O mercado externo valoriza a ponto de abrir portas para um brasileiro?
Realmente é muito difícil por conta dos custos de deslocamento. O meu sonho é abrir as portas pra outros brasileiros que deem continuidade nesse movimento de ida à Europa. Há excelentes nomes aqui, que tem qualidade suficiente pra estarem lá, mas é claro que além da logística ser mais favorável entre os países da própria Europa, eles conhecem música eletrônica há muito mais tempo, o que diminui um pouco o interesse por novidades de fora.

Du Costa: Dizem que o Brasil paga os maiores cachês  do planeta. Quais diferenças você vê na política de preços praticada na Europa?
Acho que Ibiza ainda é o grande termômetro mundial. Se o artista tem uma noite de sucesso semanal na Ilha, isso ditará o cachê dele ao redor do mundo. Para o Brasil, o que encarece é o câmbio e a distância. Mas acho que uma hora os preços se ajustarão naturalmente, caso haja impossibilidade dos clubes e dos produtores pagarem valores tão expressivos.

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Du Costa: Para fechar, eu queria uma visão geral sua sobre a bipolarização da música eletrônica, entre o popular EDM e a cena UNDERGROUND.
Recentemente eu li uma delcaração do SETH TROXLER indignado com a questão dos grandes festivais e com o predomínio da EDM um tipo de música desconectada com a essência ou as origens da verdadeira Dance Music. Acho super válido uma pessoa desse porte divulgar sua indiganação. Por outro lado, eu acabo não postando esse tipo de opinião para não fomentar ainda mais algo que já é ruim. Então tento passar sempre uma informação positiva sobre coisas realmente bacanas. Divulgar um albun novo, ou artista. Tenho isso de procurar ser sempre positivo e otimista. E de fato tudo que é mais conceitual, de bom gosto e seleto, o próprio nome já diz, é seleto e para poucos. Já pensei em comentar coisas que não concordo. Graças a Deus, ao meu trabalho e à minha equipe, já são mais de 20 anos de carreira conquistando muita coisa step by step, o que me enche de energia para continuar no mesmo caminho, independente do que há de ruim. O ruim eu não vivo, não consumo. Se aquele club só toca música ruim, eu não vou lá. Se na TV só tiver programa de baixa qualidade, eu não ligo a TV. Simplesmente não assisto. Do contrário, a coisa toda te contamina e a vida piora. É uma questão de escolha.
Me cerco da realidade que admiro e me dedico, o que é produtivo e me faz mais feliz.

Fotos: Renato Ratier. Créditos: Arquivo pessoal.

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