Duendes

Há duas noites, já naquele momento entediado do pré-sono, com o computador no colo fuçando porcarias no Youtube em meio aos lençóis, eis que me deparo com um vídeo qualquer. Nele, um grupo de jovens filma, ao acaso, o que parece ser um Duende. Espera aí, pensei… Duende? Mesmo? Me certifiquei que não estava vendo um trailer do filme da Xuxa que fala desses seres enigmáticos, e sim de um dos inúmeros virais da internet que tenta provar, por A mais B, que Duendes existem – sim! – e que estão aos montes por aí.

Os Duendes estariam escondidos. Se você é homem, saiba que eles é que roubavam a sua bolacha Traquinas quando você era criança. E te fuçavam lamber as páginas da Playboy com os olhos quando seus pelos pubianos cresciam (os seus, homens, não os deles). E são eles ainda que surrupiam todas as canetas BIC da sua casa agora que você cresceu, sem jamais aparecer e explicar a obsessão por elas.

Mulher, os duendes é que devem ter derrubado você da bicicleta quando você aprendia a andar em uma, mesmo com rodinhas. Eles sabem qual foi o dia da sua Menarca – e sabem o que é Menarca, ao contrário de muita gente que lê esse texto agora. E certamente um duende já morou dentro da sua bolsa e escapou pouco antes de você pegar a chave do seu carro, senhorita!

Me dei conta desse fato assustador: se é verdade mesmo que os Duendes existem, como bem tentam provar os múltiplos vídeos amadores nas redes sociais, como eu posso viver em paz sabendo deles sem os ver, ainda mais ciente que eles me observam e vivem de mim sem que eu até então fizesse ideia???

Pode ter um aqui e agora, no meu escritório. Quiçá ele não bebeu um gole do meu café quando eu levantei para atender o telefone na sala minutos atrás? E, como não responderam alô do outro lado da linha, quem me garante não ter sido outro Duende a ligar de lugar algum, justamente para me distrair e deixar o território livre para o feito do outro, o folgado da cafeína?

Essa velha sensação de me sentir observado: Eu sabia que não era a vizinha bonita do apartamento da frente. São eles, os Duendes, a me estudar – a TE estudar! Ocultos sob as molas da poltrona. Rápidos o suficiente para evitar o sentar da gorda; a guerra de almofadas das crianças; a limpeza rápida da diarista – que já os viu, e gritou anunciando que a casa tem ratos!!

É importante que se coloque a palavra Duende no plural. São ELES, e eles agem em bando. Como uma gangue muito bem ensaiada, obstinada pelos menores e mais discretos delitos. Usando e abusando do voyeurismo barato e descompromissado. Testemunhas físicas dos nossos tempos, dos tempos outrora tidos como futuro e dos primórdios da existência. É óbvio, pessoal! Os Duendes são velhos e sabem tudo, inclusive se o Elvis morreu de fato ou foi se esconder na Argentina com nova cara e passaporte, como alguns já especularam. Vai saber também se não foram eles que o ajudaram?

A razão de existência dos Duendes, ao que tudo indica, me leva a crer que está ligada ao entretenimento. Eles atravessam os tempos nos vendo dar nossas cabeçadas todas as vezes que caímos em uma das suas sacanagens. A mais comum tem sido esconder os controles remotos de nossas TV’s, algo que os faz rolar de rir embolados nas cortinas da sala. Nossas reações destemperadas os levam ao delírio, e só não ouvimos suas gargalhadas porque eles enfiam pedaços inteiros do pano das janelas em suas bocas para que não sejam desmascarados. Perceba a tal topada do dedinho do pé na perna da cadeira de qualquer ambiente. Não, não foi acidente. Foram eles, Duendes sacanas, que mudaram os móveis de lugar para agora deleitar-se com sua performance de saci raivoso, a praguejar o mundo e explorar o que há de pior nos vocabulários chulos de línguas estranhas. Sua dor faz os Duendes rolarem no chão com hilaridades que você só não escuta porque sua preocupação maior é arrebentar as próprias cordas vocais com a expressão de seus piores sentimentos.

Há quem diga que não, que os Duendes não são cruéis. Pelo contrário, seres iluminados e elevados que são, cabe a eles nos desviar dos males e atrasar nossa saída de casa para que o piano que despenca do sexto andar do prédio não nos atinja no cocuruto. Pois eu não teria tanta certeza. Lembrem da existência dos Gnomos, dos Elfos, dos Goblins e até dos Leprechauns!! E é tanto primo, irmão, tio, cunhado do primo da Irlanda do Norte, que fica complicado saber quem é quem e onde estão os mocinhos e por onde circulam os vilões.

O fato é que no meio de todos esses pequenos seres é antiga a premissa de que eles vivem às voltas com potes de ouro e tesouros diversos. Mas como esses seres pequeninos e barbudos tem tanto dinheiro? Isso é algo fácil de constatar: basta somar nossas quantidades de moedas perdidas nos forro dos sofás ao longos dos anos. É por elas que eles vivem. É por elas que eles agem.

Motivado pela dúvida de suas naturezas emocionais, eu procuro agora não provocar esses moradores pequenos do meu apartamento. Está certo que não lhes custava nada contribuir com as despesas ou arcar com o condomínio, mas eu é que não vou me indispor com meus Duendes. Pelo contrário. Antes de ir para a cama, vou jogar mais algumas moedas dentro meu sofá. Quem sabe assim não compro suas amizades?

Assim, posso dormir em paz. Não sem antes tomar os meus psicotrópicos.

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