Tas de sacanagem!

O ano, 2008. É junho ou julho, coisa assim. Encontro por acaso o Marcelo Tas na FLIP, em Paraty. O Tas está com um grupo de amigos e é todo querido entre o público do evento. Eu tô meio sobrando, ainda sendo assimilado pelas pessoas. O Tas não. Fluente em todos os papos, é o cara que trabalhou em praticamente todas emissoras de TV brasileiras nos últimos 25 anos. E hoje é o âncora do programa onde eu sou apenas um repórter sortudo – o CQC.

Na hora de voltar para São Paulo, o Tas oferece uma carona de carro para mim e o Diego Barredo, o diretor do CQC, que também estava por lá. Apesar de meio embaraçados, topamos. Porém, o Barredo é mais esperto e se mete no banco de trás para, em questão de minutos, dormir pesado a viagem toda. Eu vou na frente com o Tas. Tentando puxar algum assunto que não pareça medíocre. Resolvo contar a ele que já fui ator de teatro infantil, apenas para criar algum fato curioso. Ele ouve com atenção e até se diverte. Beleza!

O tempo passou e agora estamos em novembro do mesmo ano. Estou na casa do Tas, que convidou a mim e a outros colegas do trampo para um almoço por conta de seus 50 anos. É um convite gentil, o Tas tem uns amigos influentes, é um sabadão, o rango vai ser bom e é na faixa! Como não ir?

Papo vai, papo vem, come daqui, come de lá, e estamos eu e o Felipe Andreoli meio deslocados no evento, ainda nos enturmando. É quando chega o Fernando Meirelles, o cineasta. A propósito, o maior e melhor cineasta do Brasil! Amigo do careca. A propósito, amigão do careca!

Meio sem graça, peço ao Tas que me apresente ao Meirelles. Pô, eu sou ator também. O cara é a lenda viva do Cinema Nacional. E a gente nunca sabe o dia de amanhã. Vai que?..

O Tas me apresenta ao cara. “Esse é o Rafael Cortez, do programa. E ele também é ator”. O Meirelles sorri e antes mesmo que a gente possa trocar o primeiro “como vai”, eis que o Tas emenda: “Ele era o Jumento de ‘Os Saltimbancos’, a pecinha de teatro infantil”. O Meirelles ri pra caralho e agora só quer saber do meu passado bizarro. Filha da puta o Tas! E ele se diverte..

Londres, 2012. Estamos nas Olimpíadas. Eu, pelo CQC. O Tas, pelo portal Terra. Em dada noite, vamos jantar juntos: ele, eu, o Max – produtor do programa – e o Pedrinho, nosso cinegrafista. O Tas que convidou, e ele escolheu um bom restaurante! A equipe do programa come como se não houvesse amanhã (tá na conta do careca!!), mas o Tas e eu resolvemos começar uma briga besta. Começou com política, claro, e terminou com nossas análises, cada um a seu modo, do programa em que trabalhamos. Eu me irrito muito, por duas razões: 1, o Tas é cabeça dura como eu e não entra em briga para perder. E 2, ele fala muito, eu também, e isso tudo atrapalha minha entrega desenfreada à comida cara que ele pagou e que, segundo o Pedrinho e o Max, “tava da hora”!

Agosto ou setembro. O bicho pegou pro meu lado no CQC. Tive uma ideia de ir a uma festa de um importante colunista social levando um produtor do programa travestido de Celebridade. Eu e a equipe demos um banho de loja nele, passamos um gel no cabelo do cara e convencemos os chiques e famosos que ele era um deles. O cara tirou foto e tudo, foi entrevistado por jornalistas, todo mundo caiu. Mas o dono da festa, quando soube a verdade no dia seguinte, ficou uma arara comigo! Me deu aquele esporro e falou que ia reclamar com a direção do programa, da Band, etc.

Antes de chegar a essas patentes mais altas, o Tas, como o apresentador do programa, fala com o cara pelo telefone. E me defende pra caralho! A matéria vai ao ar.

Junho de 2010. Tenho que cortar meu cabelo ao vivo na bancada do CQC. É o pagamento da minha promessa feita na África do Sul, quando eu disse, em alto e bom som aos telespectadores, que assim o faria tão logo a seleção brasileira NÃO ganhasse o Mundial. Bom, perdi. É claro!

Combino com o Goncchi, diretor do programa, que é para passar a tesoura não muito rente à raiz, pois espero depois passar uma máquina 4 na cachola e não ficar com uma aparência tão, digamos… Tão Tas!

Mas é o próprio Marcelo quem dá a primeira tesourada nos meus fios, mas pegando propositalmente NA BASE da raiz, de modo a criar uma CLAREIRA no meu coro cabeludo. Em seguida, dele mesmo parte a iniciativa de sacar uma máquina que me TOSA como uma ovelha depenada. Ele ri porque conseguiu me deixar mais feio do que ele! Cacetada!!!

Novembro de 2014. Fico sabendo que ele, o Tas, é o próximo a deixar o CQC. E lembro do quanto brigamos sim, mas também do quanto ele me apoiou em muitas matérias e ideias nos meus cinco anos no mesmo programa que ele. E de como discordamos de pensamento, como eu não gostava de algumas de suas visões e de como ele fez bulling comigo. Mas também lembro das coisas legais que ele me escreveu quando eu fui embora, e do carinho que teve em seu abraço na única vez que nos vimos esse ano. Me veio também como a figura dele, do careca, bem como seu nome e história, abriram portas ao programa – e a cada um de nós, integrantes então em início de carreira televisiva – antes do CQC ser uma grife e ter seu próprio poder. Não existiria o CQC como hoje é sem ele e sem sua reputação.

Mas a vida é assim. Ele vai encerrar seu ciclo lá e abrir outro em outro lugar. E, claro, vai mandar bem de novo, como sempre. Despertando amores e ódios com suas ideias, seu humor, sua história, suas sacanagens e sua indefectível careca. Que brilha, rumo ao futuro!

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