Chuva

Olha que idiota. Eu costumava falar mal da chuva. Sim, a chuva. Justo ela.

Eu dizia saber do pecado que é dividir uma asneira dessas. Afinal, a chuva é parte intrínseca do fenômeno da vida; é obra da natureza; choro ou mijo dos anjos (versão que minha mãe narrava quando eu era criança, “tudo depende do humor deles”); espetáculo da criação; oportunidade de renovação da Terra; fruto da obra de Deus. “Eu sei de tudo isso. Obrigado, chuva. Mas procure não cair perto de mim” – eu falava isso na maior ignorância.

Essa bobagem começou porque eu nunca, jamais, em hipótese alguma consegui ter um guarda-chuva por muito tempo. E emendava a piadoca: “Até hoje acho que há um pacto entre guarda-chuvas e mulheres com relação a mim: não me pertencerão por mais que 2 horas e eu terei pago barato para que fiquem comigo. Mas nunca ficam”.

Essa estupidez com água caindo do céu deriva de eu esquecer guarda-chuvas em todos os cantos, sempre. “Quando chover e você estiver ferrado sem ter como se proteger da chuva, siga-me. Em questão de minutos, mesmo que eu precise como nunca dessa porra, eu vou deixar esse objeto em algum canto. Simples assim”. Eu contava isso aos amigos e achava engraçado. Que tonto.

Eu dizia também do tal do imã. “Tem um, colocado dentro do meu globo ocular que sempre conduzirá os meus olhos ao encontro de uma vareta pontuda e enferrujada de guarda-chuva. Hahaha!” E eu completava meu quase stand-up com essa: “tão logo me vejo abrindo um guarda-chuva na rua, imediatamente sou surpreendido por uma rajada de vento que me atinge pelas costas e faz meu “guardião das águas” se retorcer por completo, que nem a menininha maldita de “O Exorcista”. E é comum que você ouça relatos de quem já me viu com a ponta desse objeto presa na escada-rolante. Isso já me aconteceu mais de uma vez.” Eu ria. Que animal.

Mais ainda. Olha o que já cheguei a dividir com as pessoas sobre a chuva: “Eu poderia me proteger dela com uma capa de chuva. Mas qual é o sentido de usar uma coisa que te protege do ato de chover mas te encharca no ato de retirar do corpo? E tem coisa mais ridícula que capa de chuva? Quando uso uma, eu entendo como meu melhor amigo se sente dentro de um preservativo”.

Minha ira com a chuva seguia com mais algumas pérolas: “Duas coisas são certas quando chove: tão logo a primeira gota cai do céu em mim, imediatamente fico gripado. E sim, em algum momento eu vou cair na rua. Todos os meus tênis e sapatos foram desenvolvidos por arqui-inimigos do Rafael Cortez: eles criaram uma tecnologia especial que permite que não haja NENHUM atrito entre meu solado e qualquer piso onde firme meu corpo quando estiver chovendo. E, como a vida é cruel, quase sempre quando caio na chuva é numa abundante poça d’água”. Por quê eu cheguei a dividir esse tipo de bobagem com as pessoas à minha volta, meu pai?

Tinha mais: “Para consolidar meu ódio da chuva, há a máxima que diz assim: sempre choverá quando o Rafael precisar fazer muitas coisas na rua. Os raros dias ociosos que tenho para dormir à exaustão, embalado pelo barulho das gotas na janela (como isso é bom!), são sempre tomados por um sol que me chama às ruas, ávido por viver a vida! E, se posso, eu fico em casa mesmo assim. Agora, quando é preciso andar pela cidade o dia todo, aflito para resolver mil compromissos, certamente vai chover. E eu vou ter de fazer tudo que tinha previsto, mas ensopado da cabeça aos pés – só perdendo para o meu apartamento, que a essa altura já deve estar submerso por causa de todas janelas que deixei abertas”! Tsc, tsc, tsc. E eu achava graça.

Mas agora toda a água de São Paulo vai acabar de vez porque não chove direito tem um belo tempo. E eu peço perdão a São Pedro e reitero: amigo, eram apenas umas piadas bobas. Libera a torneira pra nóis que a coisa vai ficar braba!

Um abraço arrependido,

Rafa Cortez

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