Dalva e o gênio entediado

Um gênio muito inteligente e ao mesmo tempo muito entediado materializou-se assim, do nada, na frente da Dalva e de seu namorado, o Roberto. Era uma tarde qualquer de inverno de 2014 em Ouro Preto, Minas Gerais, cidade onde o casal apenas fazia turismo despropositado.

A Dalva ficou bem intrigada com aquela aparição inesperada; aquele cara com turbante saindo de lugar algum, deixando apenas uma imensa nuvem de fumaça “que certamente vai manchar minha bolsa nova”, ela pensou. Mas em seguida a Dalva reparou que o surgimento do Gênio fez o mundo à sua volta se congelar! Ninguém se movia, só ela e o Gênio, e todo o entorno estava paralisado: turistas, o garçom, até passarinho no ar, tudo, incluindo o tonto do Roberto – que nesse momento estava com a boca semiaberta e um olho fechado com o outro arregalado, colocando uma colher de doce de leite na língua.

“Hahahahaha!” – gargalhou o Gênio. E continuou:
– Curve-se diante do meu poder, garota mortal e idiota! Eu sou um incrível Gênio repleto de jogos ousados, e apareci aqui, vindo do mais completo breu, para mexer com você e testar os seus limites! Hahahaha!

A Dalva tentou fechar a boca do Roberto porque ele ainda a estava envergonhando com aquela careta com o doce, mas o corpo do parceiro estava duro como rocha. Tudo ao redor mantinha-se como num “pause” dado num filme do DVD.

– Que porra é essa que você fez? – questionou a Dalva.
– Haha, eu parei o tempo e as pessoas para que você possa me ouvir com atenção. E só você, porque você é a escolhida!
– Escolhida para que? E por quê eu?

O Gênio não soube explicar. E também, a bem da verdade, explicação não havia. Aquele era um Gênio entediado que, ao longo dos séculos, escolhia aleatoriamente vítimas inocentes para propor jogos a partir de seus conhecimentos e interesses inteligentes, quase sempre históricos, apenas para preencher seu tempo e seu desejo de entretenimento barato. Ele tinha poder, cultura e falta do que fazer, era isso. E calhou de querer mexer com a Dalva sem razão alguma. Puro tédio. Mas claro, não dividiu tal realidade com ela.

– É o seguinte, moça vil e imprestável! O tempo só voltará a correr, e sua vida você só poderá tornar a viver em um tempo contínuo e compartilhado com os demais, se você obedecer o que eu digo! E eu digo que para que retomes o que era sua existência, eu te ordeno que siga o que terá de fazer, e com a máxima obediência! Hahaha!

E o Gênio entediado explicou à Dalva as regras de seu jogo.

– Se quisesse voltar à vida normal, com tudo funcionando e sem estar congelado o tal do mundo, Dalva teria de aceitar voltar no tempo, àquele mesmo local, espaço, hora e dia da semana, mas no ano 1775.

– Uma vez na Ouro Preto de 1775, Dalva já chegaria tendo recebido do Gênio algumas moedas do dinheiro da época, suficientes para viver três dias, bem como roupas próprias para que não fosse linchada como uma espécie de Bruxa pelos locais do passado. Eles não entenderiam sua calça fusô de oncinha.

– Mas o desafio de Dalva seria sobreviver DUAS SEMANAS naquela Ouro Preto escravocrata, de modo que ela teria de arranjar emprego e mostrar aptidões com trabalhos que ela sequer imaginou, como fiar na roca ou realizar partos. Irônico para ela, que em pleno 2014 trabalhava no telemarketing da TIM.

– Se Dalva conseguisse, em duas semanas, contribuir na defesa dos Escravos, a ponto de antecipar a Luta Abolicionista Brasileira e ter o nome colocado nos livros de História, ao voltar ao ano de 2014 sua família seria uma das mais importantes do Brasil. E ela, reverenciada como uma quase Princesa Isabel, mesmo bem antes dela. E claro, Dalva viria com outra cara, nome e corpo, mas mantendo o sobrenome. Com garantias do Gênio de ser mais gostosa. (E não, o namorado não mudaria junto, não adiantava insistir).

– Não conseguindo importância alguma na mudança de vida do Brasil Colonial, especialmente na questão dos escravos, e tendo apenas trabalhado para sobreviver, tudo bem: Dalva voltaria em 2 semanas. Mas sem uma perna, como punição, já extirpada naturalmente de seu corpo, sem dor e surpresa alguma, inclusive para o namorado Roberto, que sairia do congelamento já habituado com a namorada perneta, como se nunca nada tivesse sido diferente.

– E se ela obtivesse fracasso total na missão de sobrevivência e impacto histórico-social? Por “fracasso total” o Gênio entendeu a mendicância, a prisão de Dalva por vadiagem, a prostituição como forma de sobrevivência, e a perseguição dos povos coloniais à Dalva por (outra vez o risco) vê-la como bruxa, o que por fim a desencorajou de levar seu celular. Pois bem, diante de fracasso, até mesmo se assassinada na Ouro Preto de 1775, em duas semanas Dalva estaria materializada novamente naquele local de seu tempo presente, como se nada houvesse acontecido, e com o tempo a transcorrer normalmente. Mas ela voltaria com Varíola, a doença que “passava o rodo” no mundo inteiro no passado, o que incluía o Brasil-Colônia. E, que sacanagem do Gênio!, Dalva só poderia se curar com metodologias médicas do ano em que contraiu a doença. Já o Roberto teria a aparência e idade do humorista Costinha, como se nada nunca tivesse havido de diferente.

– Por fim, um upgrade. Se a Dalva conseguisse, além da sobrevivência e ação de impacto histórico pré-Abolicionista na Ouro Preto do passado, fazer sua face virar uma escultura, UMA SÓ que fosse, nas mãos do artista Aleijadinho, mesmo como uma simples carinha de anjo de elenco de apoio em alguma igreja, ela estava feita. A Dalva viria ao presente como uma milionária bem-sucedida, além de imponente personalidade histórica nacional. E o Roberto teria a aparência do George Clooney, o que parecia ser um ótimo negócio.

A Dalva pensou um pouco, franziu a testa e lançou essa:

– E se eu não topar?

– Como assim, não topar? – o Gênio titubeou com a própria pergunta – Se não topar o tempo não volta para você, plebeia. E ficarás aqui, na Ouro Preto congelada no minuto em que entrei, sendo a única forma em movimento, com o teu entorno paralisado. Você não quer isso… Quer?

Mas a Dalva quis. E o Gênio ficou ofendido com a recusa da vítima em participar do desafio, e mais ainda por ter escolhido a presa tão mal. Mas ele era um Gênio de palavra. Teve de assegurar que não faria mal à moça e a manteria ali, naquele castigo que ela já achava uma delícia. Trato é trato. Desgostoso com a situação, o Gênio Entediado foi embora convencido que não há mais salvação para a Humanidade.

E é assim que vive a Dalva hoje. Livre, leve e solta na Ouro Preto do inverno de 2014, naquele momento que lhe fora eternizado. Vai às lojas, pega tudo que quer, come dos pratos dos turistas que estão chapados à frente, bebe das cachacinhas mineiras de copos furtados que nunca serão reivindicados por seus donos. Só ela, em movimento e às gargalhadas pela cidade, enquanto tudo ao redor se mantém estático. Feliz à beça, porque já não gostava muito do Roberto e JAMAIS entendeu uma linha sequer de História do Brasil.

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