Eu, uma criança

O Dia das Crianças foi no último dia 12, domingo. E isso me levou a lembrar de como eu era quando fui uma. Vale contar que tal processo foi um pouco trabalhoso, já que estou beirando os 40 e aqueles anos de ouro já estão ofuscados pelo tempo e pelas porcarias que meu organismo ingeriu ao longo dele, como latas de Dolly Guaraná.

Mas nada que um bom álbum de fotografias não resolva! Ok, e cadê essa droga de álbum? Na casa da mãe, trancado a sete chaves, e folheá-lo é passar pelo carão de ver a família toda a seu lado, a comentar imagem por imagem! Ah, que o seu bumbum era o mais gostoso de limpar… Ou que o primeiro dente caído rendeu tal e tal hostória da Fadinha… Ou que a amiguinha da Quarta Série que eu não quis hoje é uma gostosa rica, etc, etc, etc. MEGA SACO!

Beleza, mas fiz um esforço e consegui trazer do limbo do passado alguns pontos da minha infância que hoje podem elucidar melhor o cara perturbado que eu me tornei. Dividir isso com vocês é uma forma de terapia, mas com a diferença de ser pública e não terminar comigo fugindo pela janela justo na hora de pagar a consulta! Vamos lá…

– Eu gostava de sangue, de muito sangue. Sim, fui quase uma criança-vampiro. Mas tinha uma coisa, sangue dos outros só em foto ou na TV. Nesse sentido, filme do Tubarão era o máximo. E capa de discos do Ozzy Osbourne, nem se fala! Agora, comigo, sangue meu, tinha que ser real, quente, escorrendo! Bastava me ferir por acaso com qualquer porcaria, e eu deixava escorrer para depois virar aquela casquinha nojenta. E eu ficava brincando de abrir minhas feridas labiais ocasionadas pelo frio só para ver sangrar. Fiz isso tantas vezes que hoje tenho uma cicatriz bem no meio do lábio inferior. Agora, por quê eu fazia isso? Não faço nenhuma ideia. Sei que a obsessão passou. Ainda bem. Hoje eu preciso conviver com mulher menstruada, naquela época não.

– Eu gostava de brincadeiras idiotas. Mas completamente idiotas. Umas das minhas prediletas era também nojenta, além de idiota: guerra de papel cuspido. Eu e a besta do Marcelo, outro porco, fazíamos bolinhas de papel sulfite, colocávamos na boca e saíamos a cuspir um na cara do outro quando a tal munição já estava bem encharcada de saliva. Pra que isso, meu pai? Outra brincadeira notavelmente imbecil: luta de testículos. Só entre os meninos, é claro. Ganhava o moleque que conseguisse girar a bola do inimigo (regra: sempre por cima da calça) como o beliscão do Seu Madruga no Kiko até o oponente soltar um Dó Sustenido de cantora lírica. Eu perdi muitas vezes, e é por isso que até hoje sou meio desafinado.

unnamedRafa quando criança! Fofo né? Esse da direita. O da esquerda não sabemos quem é!

– Eu era fã do Menudo. Sim, isso mesmo que você leu. Fã da boy-band porto-riquenha Menudo, com os incríveis Roy, Ray, Charlie, Rick e o Robi Rosa. Desculpe, o “incríveis” saiu como memória emotiva. Pois é, mas eu gostava deles. Eu sabia as letras. Eu praticava as coreografias! Eu cantava junto!!! Anos mais tarde passei a contar que eu era um falso fã. Que, na verdade, eu me fazia passar por um só para chegar mais fácil nas meninas da minha sala. E que parei de ser fã assim porque as garotas começaram a insistir que eu brincasse de boneca com elas. Mas a real é que eu gostava deles. Mas gostava, porque hoje eu os acho apenas uns caras muito legais. Opa, quer dizer… Uns merdas!

– Eu passava tardes e mais tardes inteiras desenhando à exaustão. Eu era o criador, desenhista, roteirista, finalizador e praticamente ÚNICO leitor da “Turma do Fortudos”. Ficava horas inteiras dando vida às tramas que eu criava ao longo do dia, na escola, viajando na maionese ao invés de estudar. Mas tem uma coisa, não é que eu desenhava e criava tudo de modo apenas terapêutico, solitário, sem pretensões. Eu ficava às voltas com o desenho com ganas de chegar à revistinha de número 100 (cheguei perto, parei na 87). Tinha que ter publicação semanal, com prazo para eu cumprir e entregar, de mim para mim mesmo. Todos os “gibis” saíam pela minha “editora”: a FECHOU. Era uma piada péssima em alusão à editora ABRIL. Olha isso! E, finalmente, todo meu trabalho e investimento com desenhos era apenas para me tornar o sucessor do Maurício de Souza. Simples assim. Entenderam a razão de eu não ter dado certo nessa profissão? Hoje, eu não sei desenhar nem casinha mais…

– Na escola, eu gostava de ser o Monitor da Sala. E eu levava o cargo à sério como um Fiscal de Segurança de Usina Nuclear (mas não o Homer Simpson). Sério, eu era muito coxinha. Contava na cara dura para as professoras quem não tinha se comportado quando elas se ausentavam para ir ao banheiro. Denunciava quem colava. E só parei de ser assim depois que fui jurado de morte pelo André Alimari. Eu o denunciei à dona Oneida, a diretora, porque o vi fumando um cigarro no recreio, escondido. E moleque de 12 anos não fuma! Bem, ao menos naquela época era assim. O André tomou advertência e eu só não morri na saída da escola porque fui para casa escoltado por um grupo de 20 meninas. Sim, meninas. Eu era um cagão. Mas era (era) o queridinho das garotas…

– Já contei isso inclusive no meu site. Mas é fato, um dia comprei um frango morto e depenado na feira só para esmagar sua cabeça com um martelo de açougueiro. Eu queria ver o cérebro. Não consegui porque fui flagrado por uma avó, que prontamente correu para cuidar de quem mais merecia atenção naquele momento: o frango, claro, mesmo comprovadamente morto.

– Por fim, e isso é grave. Eu demorei ANOS para crescer. Anos! Aos 16 anos eu tinha voz, corpo, pele e tamanho de um garoto de 11. Nenhum pelo no sovaco. Nenhum pentelho no perú, que era do tamanho de um amendoim (era – hoje já parece uma castanha do Pará). Por não ter o sistema reprodutor já desenvolvido, atrasei muito minha Perda da Virgindade. Mesmo que as garotas quisessem, e é um fato que elas não queriam, eu não poderia transar. A coisa só se resolveu quando passei a tomar Hormônios mil, e aí me nasceu um belo Pomo de Adão no pescoço e eu passei a ter voz de teenager fanho e pelos na mão direita (não preciso explicar essa). A coisa chata é que estou crescendo até hoje. Semana passada, me nasceram pelos no peito. Bom, poderia ser pior: se minha mãe confundisse meus hormônios com os que minha irmã tomava, hoje eu poderia ter seios.

Esse era eu quando criança. Um jovem mancebo sem pecado, mas não por opção. Um combatente da verdade e justiça na escola, ainda que fosse um bundão. Um apaixonado pela arte, um curioso da natureza, um profano nas brincadeiras, portanto um potencial integrante do futuro CQC por natureza. Mas eu era feliz e tinha duzentos amigos que eram felizes comigo. Hoje a minha criança sorri no porta-retratos para mim, ao mesmo tempo que me questiona essas minhas rugas, a recente queda capilar e que pelinho novo é esse debaixo do meu queixo…

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