O Monstro

Desde criança, o pai sacaneava o Paulo Vinícius. “Olha que tem um monstro debaixo da sua cama… Cuidado que o monstro ataca criancinha que não dorme”. E por aí vai.

Claro que, como sempre acontece na psicologia infantil, esse tipo de mentira maldosa e assustadora provocava um efeito inverso no Paulo Vinícius, algo que com qualquer outra criança também seria comum. O Paulo Vinícius passou a infância com mais medo do que respeito pelo monstro da cama. Segundo os pais, dormir era o modo correto de evitar o encontro com a entidade bizarra abaixo do colchão. Mas tão logo a porta do quarto era fechada e aqueles genitores cruéis iam para suas luxúrias sexuais ou descansos acomodados, era óbvio que o Paulinho não pregava os olhos: justamente por estar morto de medo do monstro!

Mas o tempo passou, e mesmo dormindo mal durante muitos anos, e sempre se borrando de pavor do ser sob a espuma da cama, o Paulo Vinícius cresceu. Virou um homenzinho. Depois, um homenzarrão. E ele um dia se casou e teve o seu próprio filho, o Júlio. E estava tão feliz com isso que nem lembrava mais do terrorismo do monstro e do que aquilo lhe causava.

Bom, mas como os erros às vezes não existem para evitar sua reprodução futura, eis que um dia o besta do Paulo Vinícius começou a dizer para seu filhinho Júlio, lá pela casa de seus 4 anos de idade, que o tal do monstro que mora debaixo da cama está ali para pegar crianças que não dormem. E que ele tem garras afiadas, nunca tem sono justamente para vigiar quem além dele tem o mesmo problema, etc, etc, etc. E claro, o Júlio não gostou nada daquilo. Mas o Paulo Vinícius riu e achou a situação normal, quase gostosa. “É cultural”, justificou para a Mariana, sua esposa. “E mais, é uma tradição. Meu pai me criou assim, e é desse modo que vou educar o nosso filho. Ele não vai nem ligar. E um dia ele esquece e segue a vida como eu, sem problema algum”. Terminada a frase, o Paulo Vinícius roeu mais um pouco a unha do mindinho, até ferir sangrentamente a cutícula.

E assim foi. Três, quatro, seis, nove noites seguidas. E, medroso de tudo, o Júlio começou a conjecturar sobre o monstro debaixo da cama. Mas foi quando o menino começou a falar da criatura para os amiguinhos da escolinha é que aconteceu o que será narrado a seguir.

Em determinada noite, quando todos já dormiam (menos o Júlio, é claro, mas ele não se atrevia a abrir a boca), o Paulo Vinícius levantou da cama para tomar uma água na cozinha. E, ao entrar lá, deparou-se, – estupefato! – com um monstro velho, gordo e cansado, que o olhou com uma cara exausta para balbuciar. 

–       Vem cá, você não tem vergonha na cara não?

Sim, era o monstro! Que não deixou nem o Paulo Vinícius gritar porque o interrompeu. Pediu o isqueiro para acender um cigarro.

Chocado, o Paulo Vinícius sentou no chão porque nem teve forças para puxar um banquinho da mesa do café. E ouviu o monstro reclamar de uma série de coisas: que entendia que a ele, monstro, fora dada a sina de morar debaixo da cama do homem que agora o olhava incrédulo. Que ok, o Paulo Vinícius tinha sido uma criança chata para cacete e nunca cumpriu o combinado de dormir para que ele, monstro, não o atacasse, mas nem por isso o monstro o destroçou com suas garras. Depois, que saco que foi a adolescência do Paulo Vinícius. Que foram aquelas perversões debaixo dos lençóis, sozinho? Ele achou mesmo que estava em plena privacidade? E o respeito, cadê? Aquelas revistas que passaram a morar com ele naquele espaço cada vez mais apertado abaixo do estrado da cama… Que sacanagem! Depois, teve a mudança de casa, aquela BAIXARIA (ele enfatizou muito a palavra) na república estudantil da fase da faculdade e, por fim, “o casamento com “essazinha” que insiste em mandar a empregada limpar, dia após dia, milimetricamente o meu espaço sob o colchão – que, por sinal, ficou menor, mais apertado e com mais impacto em mim. Sim rapaz, porque agora a cama até é de casal, mas eu engordei, você também e não esqueçamos que são DOIS em cima de mim!!”

O Paulo Vinícius não conseguia segurar o próprio queixo. E o monstro continuou a reclamar:

–       Bom, e aí não é que o senhor resolve ter um filho? E mais, diz para essa porra desse moleque que eu moro embaixo da cama dele também! E pra que isso? Pro idiota aqui começar a fazer jornada dupla toda noite, indo da merda da sua cama para a dele, sendo que com as nossas panças está cada vez mais difícil me arrastar para fora desse cubículo que passou a ser a minha casa! E a cama desse pentelho do seu filho é ainda menor!

O Paulo Vinícius bem que tentou falar finalmente alguma coisa, mas o monstro continuou:

–       Mas a gota d`água está sendo essa semana. O PUTO do seu filho começou a fazer propaganda de mim na escolinha e agora eu tenho que fazer serão em um monte de casa nova, debaixo de um monte de caminha de moleque cagão, sendo que eu ainda tenho a sua e a desse pentelho para vigiar. Eu sou um só! Escuta, é assim que você me retribui por tantos anos de convivência?

Ficou acertado o seguinte então com o monstro. Por consideração a ele e a sua dedicação e sofrimento todos aqueles anos, e naqueles últimos tempos, em especial, o Júlio passou a dormir numa cama king-size de luxo. É ali, embaixo dela, que o monstro vive agora. A Mariana foi proibida de fazer limpeza pesada no local. A puberdade do Júlio, quando chegar, será monitorada. E o Paulo Vinícius e a Mariana, que ainda não entendeu nenhuma das ações do marido e nem porque ele anda tão assustado, passaram a dormir em um tatame japonês. É isso.

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